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No meu Palato

No meu Palato

Cazas Novas | Na véspera de não partir nunca

"Elegância é a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado subtil de se deixar distinguir." Paul Valéry

Cazas_NovasFernando Pessoa, o mais conhecido poeta modernista lusitano, deve a sua fama internacional, sobretudo, à complexidade dos seus heterónimos. Nesse vasto rol de personagens encontramos de tudo um pouco, desde poetas, escritores, filósofos, comentadores políticos e uma espécie de influencers sociais da altura. Segundo os estudos mais recentes, existem setenta e duas personalidades em Pessoa. Cada uma delas com a sua própria biografia, estilo e modo de viver. Com os heterónimos Pessoa apresenta maneiras distintas de encarar o mundo e com cada um deles, esconde-se desse mesmo mundo.

Cazas_NovasPodemos procurar Pessoa nos poemas e nas prosas, mas o certo é que não o encontramos em lado nenhum, afinal, aquele era o poeta que se apresentava com a premissa: "Fingir é conhecer a si mesmo".  Para se fingir Pessoa separou-se em personalidades distintas, como um enxame de abelhas literárias que se assumiam como extensões, mutações e interacções de si mesmo.  Para alguns autores, o acto de escrever é uma espécie de personificação daquilo que somos. Com Pessoa, temos a visão oposta, a de que os seus heterónimos nasciam como meio de fuga dele próprio, criando uma mini-cultura de Pessoas, sendo que o Pessoa original era a menos "real" e convincente de todas.

Cazas_NovasAlberto Caeiro foi o primeiro dos grandes heterónimos de Pessoa, nasceu 1889 e morreu em 1915 com tuberculose. Não tinha "profissão nem formação", era de estatura mediana, pálido e de olhos azuis. Certa vez, Caeiro revelou numa entrevista as suas humildes aspirações: "Não pretendo ser nada mais do que o maior poeta do mundo", disse. "Notei o Universo. Os gregos, com toda a sua acuidade visual, não fizeram muito." A ele juntou-se Ricardo Reis em 1887, um classicista médico residente no Brasil. Pessoa explicou que Reis "é um latinista em virtude da formação escolar e um semi-helenista em virtude do seu próprio esforço".

Cazas_NovasHá ainda Álvaro de Campos, nascido em Tavira a 15 de outubro de 1890 “às 13h30”. Campos era um engenheiro naval bissexual desempregado que, depois de concluir engenharia em Glasgow, se mudou com malas e bagagens para Lisboa. Era alto, Pessoa precisou: "1,75 metros de altura, dois centímetros mais alto que eu" e "esguio com uma ligeira tendência para se curvar". Álvaro era "louro e moreno, um tipo vagamente judeu-português, cabelo, portanto, liso e normal e possuidor de um monóculo". Nele, Pessoa investiu "toda a emoção que não permito nem em mim nem no meu viver".  Decadente e elegante, Campos autodenominou-se um poeta "sensacionalista", e seus longos primeiros poemas - em parte influenciados por Walt Whitman - celebraram as máquinas e a era moderna com grande exuberância. 

Cazas_NovasEssa atitude inicial, paulatinamente, deu lugar a uma angústia existencial incómoda que encontrou expressão em poemas mais curtos e coloridos pela melancolia, mas o seu lema era ainda e sempre “Sinta tudo em todos os sentidos”. O maior e mais divertido dos heterónimos, ele até "gozou" com a vida privada de Fernando Pessoa, tem, quanto a mim, um dos melhores poemas de génio literário português, o "Na véspera de não partir nunca".

Cazas_NovasFernando Pessoa, com sua inquestionável sensatez, convida-nos a pensar lá do alto do pináculo de catedral da nossa conformada existência, no quão acomodados estamos diante de tudo que acontece ao nosso redor. Acostumamo-nos com tudo: com a violência, com a guerra, com a pobreza, com a corrupção, com as fake news, com a falsidade, com a mentira e com a mediocridade. Mas como não poderia deixar de ser, todas estas características são dos outros e não nossas ;)

Cazas_NovasNesse poema, percebemos ainda o motivo pelo qual as viagens, físicas e espirituais, podem girar em torno de si mesmas, colapsando no passado o no futuro, ecoando, desta forma, os paradoxos irónicos de Pessoa de uma forma genial. Com este sarcasmo construído de palavras que rimam, Caeiro incita-nos a não sermos conformistas, resignados e acomodados. Incentiva-nos a fazer pela primeira vez, a fazer diferente ou a fazer melhor. Porque senão, hoje, será sempre uma véspera de não partir nunca. 

Cazas_NovasEssa "oportunidade virada do avesso" de sermos buliçosos em espírito pareceu-me um bom complemento literário para os vinhos Avesso do projecto Cazas Novas. Em Santa Marinha do Zêzere, Baião, no sudeste da Região Demarcada dos Vinhos Verdes, já em pleno vale do Douro, esse novo projecto propõe uma viagem única pelo estudo e interpretação de uma das mais entusiasmantes e enigmáticas castas brancas portuguesas: o Avesso.

Cazas_NovasResultado da paixão de quatro empreendedores ligados ao sector do vinho, esta parceria dá-se a conhecer com o lançamento de duas novas referências no mercado: o Cazas Novas Avesso Colheita e Cazas Novas Avesso Pure, vinhos da colheita de 2019, num total de 26 mil garrafas produzidas, exclusivamente, com esta variedade tão exclusiva.

Cazas_NovasCarlos Coutinho (gestão agrícola e financeira), Diogo Lopes (enologia e viticultura), Vasco Magalhães (gestão comercial e marketing) e André Miranda (produção e gestão) são os parceiros e entusiastas que se propõem, literalmente, virar esta casta e estes vinhos do Avesso, potenciando novas expressões para uma variedade de enorme potencial. Esta casta icónica do sudeste da Região dos Vinhos Verdes, encontra na sub-região de Baião o seu campo de expressão mais vasto, mais genuíno e de maior qualidade. 

Cazas_Novas_Ali, já no Vale do Douro e nos solos pobres que marcam as vinhas de encosta, apresenta-se como uma variedade de viticultura difícil, mas vigorosa, apreciadora do clima seco, dos invernos frios e dos verões muito quentes. O resultado deste terroir é materializado em notas a flor de laranjeira, limonete, funcho, maçã verde, abacaxi, mineralidade crocante (pedra molhada), bom volume, frescura equilibrada e bonita harmonia aromática do amarelo-palha Cazas Novas Avesso Colheita 2019 (4,99 €, 81 pts.). 

Cazas_NovasConfesso, que gostei (bastante) mais do Cazas Novas Avesso Pure 2019 (12,99 €, 88 pts.), por ser um vinho que vai mais além do que normalmente encontramos num Avesso, é um vinho "que na véspera ja sabe que vai partir de viagem" ;). De cor citrina intensa e cristalina, exibe maçã verde, tangerina, pêssego, relva recém-cortada,  pedrogosidade (granito partido) e frescura assertiva.

Cazas_Novas No palato mostra-se muito guloso, complexo, fino, consistente, volumoso e surpreendentemente cremoso. Por momentos fez-me recordar um Chardonnay de clima frio. Ambos os Avessos, com forte mineralidade e frescura, foram muito bem com uma Orecchiette, azeite de trufa e revueltos de toucinho de porto preto e cogumelos Shimeji. A untuosidade mais acentuada do Avesso Pure, fez com que a harmonia fosse mais feliz.

Cazas_NovasParabéns por esta oportunidade virada do Avesso, com originalidade, terroir, identidade e uma elegância que não se quer fazer notar aliada ao cuidado subtil de se deixar distinguir. Dois excelentes heterónimos da casta Avesso, será que tal como em Pessoa, haverão mais alguns?  ;)

Orecchiette, azeite de trufa e revueltos de toucinho de porto preto e cogumelos Shimeji:

-Cozam a massa  Orecchiette durante 12 minutos;

-Enquanto a massa coze, num tacho grelhem num fio de azeite o toucinho de porto preto e cogumelos Shimeji, temperando com sal e pimenta branca;

-Passados 5 minutos acrescentem um pouco de Conhaque, deixem evaporar o álcool e acrescentem os ovos a gosto;

-Depois da massa estar al dente, juntem-na ao tacho, desliguem o lume, acrescentem um pouco de azeite de trufa, misturem e sirvam.

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